Tratamento

Já faz mais ou menos um ano que estou fazendo tratamento contra a depressão, desde que me mudei de estado. Tive alguns tropeços até encontrar o tratamento que melhor me adequasse, mas hoje vejo que estou tendo resultados.

Realmente o tratamento está me ajudando. Mas ao mesmo tempo me deixa confusa e esses dias até um pouco triste com a melhora.

Não pelo fato de estar melhorando. Mas pelo fato de isso estar acontecendo com a ajuda medicamentosa.

Isso me fez pensar, quem sou e como sou afinal?

O remédio está me ajudando a ser o que realmente sou ou o remédio está me fazendo a ser o que deveria ser? Isso realmente está passando pela minha mente e ainda não encontrei respostas.

A suposição mais otimista que tive foi de que estou há tanto tempo, mas tanto tempo convivendo comigo depressiva, que acabei aprendendo a me identificar como uma pessoa depressiva e esqueci como não era ser uma.

Provavelmente uma terapia serve para ajudar nesta transição. Mas aí vem a outra pergunta. A terapia vai me ajudar a lembrar que um dia fui o que estou me tornando, de novo (?), com a ajuda do remédio ou a terapia vai me ajudar a ser esta nova (?) pessoa que estou me tornando com a ajuda do remédio?

Realmente não pensei que a crise existencial viria com o tratamento.

Estranhamente, antes de estar me tratando, apesar de todo o sofrimento, das dores emocionais que me atingiam até mesmo o físico, eu não tinha dúvidas do meu eu.

Em fim, não pretendo parar o tratamento, por enquanto, pois percebo melhoras no meu rendimento profissional e meu marido está vendo melhoras no nosso relacionamento. E inclusive, percebo que as dores, tanto emocionais quanto físicas, estão mais brandas e o não tê-las tão intensamente é bom. Porém, acho que não encontrarei uma resposta tão cedo e fácil para este meu novo desafio.

Afinal, quem e como sou?

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Felicidade

Esses dias conversando com a minha irmã surgiu um tema para reflexão.

Ela entrou em contato comigo para me comunicar que começou a namorar.
Como irmã, não resisti a pergunta piegas “está feliz?”
Quando ela me respondeu um “estou de boas”.

” Isso é o mais importante. Até hoje não sei o significado de ‘ser feliz’. Acho uma palavra muito complexa.” Foi a minha resposta sincera.

Com segurança, ela me disse: “Eu já soube. A nossa vida com nossos pais, as coisas simples. Isso era felicidade plena”.
Concordei e conversamos um pouco mais e cada uma voltou ao seu trabalho.

A conversa me deixou refletindo.Foto de autoria própria

Hoje eu sei que aquela fase foi uma fase feliz.

Tivemos nossos problemas? Como qualquer pessoa.
Mas as boas lembranças superaram.

Mas e hoje?

Então foi quando percebi que, apesar de tudo que já passei com a minha depressão e que ainda passo, não lembro de me sentir infeliz ou até mesmo desta palavra passar na minha mente.
Sei dos meus sofrimentos, das minhas dores. Porém sei também do apoio que tenho da minha família e a presença do meu marido que não desistiu de mim.

Algo me diz que, quando eu olhar para trás, direi que fui feliz.

 

Consequências

Passei tanto tempo da minha vida me isolando do mundo que, quando percebi não sabia mais viver em companhia.

Cheguei a um ponto que não me recordo mais o que é conviver. Apenas tolero o ter que conviver.

Eu lembro claramente que em algum momento da minha vida tive amigos, passeios, ida às casas, telefonemas, convivências.

Mas não lembro mais como eu me sentia e o porque fazia tudo isso. Não lembro mais do prazer que era ter tudo isso. Apenas lembro como se fosse um filme mudo antigo.

Acabei me tornando o que sou hoje. Uma eremita incompleta.

Tenho relacionamentos rasos no trabalho e na faculdade e não tenho o mínimo desejo de me aprofundar.

Basta ter o meu marido, meus pais e minha irmã.

Mais do que isso, só me causa angústia. Não gosto, me  sinto incomodada.

Quem sabe, se a depressão não tivesse me encontrado, eu pudesse ter me tornado outra pessoa.

Mas me tornei o que sou.

Em algum momento desta transformação eu devo ter lutado.

Não sinto que perdi a luta, apenas descobri um outro modo de ser.